terça-feira, 12 de março de 2013

Conversas difíceis

Estava à espera do dia em que ele me perguntasse como é que o bebé entrou na minha barriga. Para essas perguntas eu estou preparada. Mas não foram essas que chegaram...

Ontem, um João angustiado, chegou ao pé de mim e, do nada, começou a perguntar quando é que ia morrer. Se era quando fosse muito velhinho como os avós do pai. Perguntei-lhe porquê; disse-me que tinha medo, que não queria ser velhinho nem morrer.Tentei explicar-lhe a "lei da vida", do nasce, cresce, envelhece e morre, simplificando ao máximo. Mas ele insistia na mesma tecla, que não queria morrer. Eu, já angustiada com a conversa e sem saber o que lhe dizer e como lhe explicar uma coisa que para mim é tão complexa, já estava de lágrimas nos olhos. Dei-lhe um abraço e um beijinho e disse-lhe para não se preocupar e para não pensar mais nisso...

Hoje falei com a educadora e com a auxiliar para saber se ele na escolinha também mostra algum medo ou se fala nisso - até agora não deram por nada e não se aperceberam de conversas sobre a morte entre os miúdos.

Como é que se explica a morte a uma criança que ainda não tem 5 anos? A uma criança que, felizmente, ainda não passou pela perda e pelo luto de ninguém? E de onde é que ele foi tirar esta conversa? Como é que ele tem medo da morte se não sabe o que é? - digo eu...

11 comentários:

Aline Rodrigues disse...

Eu expliquei a morte ao Martim quando o avô dele faleceu (que agora era uma estrelinha), pois só tem 3 anos. Frequentemente me fala nisso, da morte, da morte dos animais, que tem medo. Explica, com palavras mais suavizadas.
beijinhos

Maffa disse...

Acho que responderia igual "Näo te preocupes com isso..."
Nessa idade eles confiam muito em nós e se nós dissermos para desvalorizar um pensamento. Porque näo vale mesmo a pena viver angustiado com a morte... em nenhuma idade mas aos 5 anos muito menos.
Por isso acho que continuaria aberta para essas conversas mas desdramatizando a coisa...
O meu tem 4 anos e meio e fala da morte com uma tranquilidade assustadora... Näo sei onde é que ele foi buscar o discurso, desconfio que foi na escola que aqui os dinamarqueses säo muito päo päo queijo queijo. Entäo ele diz que tem de se ter cuidado na estrada ou qq coisa que seja perigosa, senäo pode-se morrer, e depois era chato porque os pais iam ter saudades dele... e ele tb ia ter saudades nossas. E eu fico meia perplexa a olhar para ele sem saber bem o que dizer mas acabo por concordar e ficar calada.

mãe pimpolha disse...

O Edu brinca com a morte como se fosse uma coisa engraçada, diz que é giro matar e ainda mais morrer. Tento explicar-lhe que qd alguém morre não a voltamos a ver, que ficamos sem ela, mas ele quer lá saber, é mais engraçado simular que dá tiros nos manos com uma pistola de água. Enfim...
Beijocas

Marlene, Simão e Martim disse...

o Simão fala algumas vezes sobre morrer. Sabes que ele já perdeu a bisavó e o avô paterno. E faz perguntas sobre onde eles estão. E se morreram por serem velhinhos. E se nós, pais, também vamos morrer quando formos velhos. Eu fico muito angustiada mas tento explicar e distraí-lo para parar de falar sobre esse assunto. É muito complicado.
Beijoca

Nídia disse...

Ui... been there, done that. Passámos por 2 mortes muito recentemente. E a Inês sentiu falta do avô. Como não sei quem lhe falou em Jesus e tal, eu disse que o avô tinha ido para o céu beber um copinho de vinho tinto com o Jesus. Mas não adianto muito. São muito novos para se preocuparem com isso. Boa sorte.

Sónia disse...

Olá Mara,
Ao ler o teu post lembrei-me logo do livro: "Para Onde Vamos Quando Desaparecemos"

Vê em:

http://www.planetatangerina.com/pt/livros/para-onde-vamos-quando-desaparecemos

Dá uma vista de olhos noutros livros infantis que esta editora tem! A Carlota ADORA!!

Beijo
Sónia

Andreia disse...

É mesmo um tema duro e difícil de abordar, que angustia muito a Joana. Agora já vai "encaixando" melhor, mas para não a preocuparmos demasiado, a ideia que tem é que se morre velhinho.
Quando a assustei com a questão das quedas das janelas (de que tenho pânico) e que depois não nos víamos mais, não ligou muito. Isto começou há um ano com conversas na escola entre miúdos sobre a Páscoa. Até pensei que tinham sido as educadoras a contar a história de Jesus, e fiquei doida, mas não! A preocupação da Joana era Jesus ter morrido e estar sozinho no céu, sem a mãe. Para ela Jesus é o menino do presépio. Disse-lhe que a mãe estava no céu com ele e fez-me prometer que, se ela morresse, eu morria também para ficar com ela. Estás a ver isto aos 3 anos? Fartei-me de chorar.
Este ano estudaram o corpo humano na escola e como funciona (really aos 4?!?) - Vê lá se faz parte do programa e o João também não andou a "estudar" isso! Ela bateu um bocado mal com a educadora perante a ideia que nos contou "quando somos velhinhos o coração pára e morremos", a repetir que não queria ter cabelos brancos e morrer! Entretanto lá encaixou que faltam muitos anos "praí 200" e acrescentei que depois um dia nos encontramos todos...
Julgo, também pelo que falei com a educadora e a psicóloga, que o melhor nesta fase é eles perceberem o tema pela lei natural da vida e que os pais vão estar com eles. O resto vão percebendo com o tempo. Para eles a ideia da eternidade é inconcebível e mesmo o conceito "muito tempo" é difícil. Se mesmo nós não sabemos como vai correr a vida e como é depois da vida, não temos certezas de nada para quê antecipar e angustiá-los com incertezas?

No início do ano morreu o Spock, o cão dos meus primos, com 15 anos, só lhe faltava falar e as miúdas adoravam-no. Eu nem sabia que a Joana sabia a notícia, mas foram as primas que lhe contaram. Passadas 2 semanas, a Joana diz "Sabes porque é que o tio João estava muito triste nos Reis? Porque o Spock morreu, estava velhinho". Aproveitei para dar mais umas achegas, de que ele estava no céu dos animais e agora estava com os pais.
Esta semana perguntou ao pai pelo pai dele, onde estava, se tinha morrido, porque é que tinha morrido. Deve ter vindo a propósito do dia do Pai. Falou mais tranquila, mas são questões que andam pela cabeça.

Dói muito, mas pelos vistos é comum a muitas crianças, mais ano, menos ano. Bem me lembro de ser miúda e ser inconcebível para mim perder pais e avós. Entreva em pânico. Nessa altura pensamos que eles vão morrer enquanto somos crianças, porque não nos imaginamos adultos. Não temos estrutura para perceber que nessa altura seremos, assim esperamos, diferentes.

Não sou apologista de mentir às crianças, mas neste caso nem é isso. É só suavizar, da mesma forma que ao início do dia dizemos, "a mãe vem já" e só pode vir ao fim do dia.

Espero ter ajudado com este looongo comentário... aprendo e cresço muito com a cabeça "complicada" da minha filha (apreende muito do que a rodeia, numa estrutura de 4 anos), mas pelo menos que ajude outros!

Sarita disse...

Mara, uma vez o Eduardo Sa disse que enquanto eles são muito pequenos devemos dizer-lhes que as pessoas que eles mais gostam não morrem, para não provocar angustia, tipo a mae, pai e irmaos. Que quando forem confrontados com a morte já serão maiores e poderão perceber melhor as coisas. quanto aos avos e mais fácil aceitar porque já são velhinhos. No outro dia quando a minha avo morreu tive de explicar ao diogo, ele percebeu, mas disse logo que não queria ser velhinho...e eu descansei-o, disse-lhe que nunca iria ser velhinho...qq dia vai perceber que não e bem assim, mas ai já não existe angustia...

Vera disse...

Mara, é normal, é típico do desenvolvimento infantil nessa idade. Se ele perguntou é porque sentiu curiosidade para ouvir a resposta, que deve ser simples. Fazer o paralelismo com os animais e com as plantas ajuda a perceber.
Boa estratégia é usar o exemplo que as pessoas morrem quando são muito velhinhas, e que os pais morrem, sim, mas só quando forem muito velhinhos e quando ele for muito crescido, que falta ainda muito tempo.
Espero ter ajudado, de alguma forma. :)

lucia disse...

agora imagina o que passei a ter de explicar ás minhas filhas que os irmaos morreram.... é bem pior do que podes imaginar

hj nao é um bom dia, mas depois com calma eu conto te como fiz com que elas tenham uma visao bonita da morte
beijocas grandes

Liliana disse...

A Lara ultimamente ( e com apenas 39meses) esta sempre a dizer: tu nunca vais morrer mãe, eu vou proteger-te sempre e vou estar sempre contigo...também lhe digo para não se preocupar que a mamã também vai estar sempre com ela sempre...As cabecinhas deles são uma fonte enorme de imaginação :)